Sobre as vantagens de se esquecer…..

Funes, o memorioso, é um personagem fantátisco de um conto de Borges. Ele tinha uma habilidade certamente incomum, era capaz de se lembrar de tudo o que experenciava sem se esquecer de nenhum detalhe. No conto Funes trata de enumerar as imensas vantagens que obtivera com esta sua impressionante capacidade de lembrar. As vantagens de se lembra são realmente muitas, mas, e as vantagens de se esquecer?
A memória se esquece aquilo que não lhe parece fundamental, é importante esquecer para não sobrecarregar a nossa consciência, lembrar-se de tudo seria uma tortura, seria trabalho extra, seria se sobrecarregar. Ja imaginou se fosse necessário se lembrar de respirar a todo momento, viveríamos eternamente encarregados de encher e esvaziar nossos pulmões, ao menos a problemática da nossa angustia existencial estaria resolvido. O sentido da vida seria basicamente respirar, mas, o corpo respira automaticamente e nos ficamos livres para fazermos o que quisermos. O que a consciência esquece o corpo faz com maestria, esquecer nos faz viajar com menos carga, mais leves, isto faz de nós pessoas descansadas e pessoas descansadas são mais felizes. O cansaço é como uma mosquinha que fica sobrevoando a nossa cama enquanto tentamos dormir, nos tira a paz.
Esquecer é uma tarefa do inconsciente, somos certamente incompetentes para esquecer, conscientemente não podemos escolher ao menos com facilidade esquecer, isto é tarefa da inconsciência. Não basta dizer quero esquecer isto, quanto mais fugimos de memórias supostamente falecidas mais o seu fantasma insiste em nos assombrar. Gostaria de esquecer a primeira vez que beijei a minha namorada, afinal, nunca mais saberei o gosto real do que foi nosso primeiro beijo, disso só carregarei lembranças, mas, as melhores lembraças dos nossos primeiros olhares não são nossos primeiros olhares. Sinto uma dor imensa de nunca reviver ao menos como experiência contreta todas as maravilhosas sensações que se passaram no primordio, não que o que se seguiu não foi bom, mas, não é a primeira vez. Nunca poderei passar no vestibular pela primeira vez, pois eu carrego a maldição de já tê-lo feito uma vez. Assisti um filme uma vez, “Como se fosse a primeira vez”era a historia de uma garota que sofrera um acidente de carro que lhe causou sequelas, ela não era capaz de memorizar nada do que acontecera no dia posterior ao acidente, dia do seu aniversário, assim todos os dias para sempre eram seu aniversário. Desse modo seu par romântico no filme tinha a sublime tarefa de conquistá-la cada dia como se fosse a primeira vez, o esquecimento eternizou sua primeira vez, esquecer nos protege da rotina.
Borges termina a narração do conto do memorioso com a seguinte consideração a respeito de Funes.
“Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.”
Será precisa criar faculdades para aprender a desaprender, o Manoel Barros enxerga mais longe ele sabe que todos os caminhos levam a ignorância, o Murilo Mendes também faz a mesma pergunta. Não seria necessário no futuro criar faculdades para a ignorância?
Esquecer nos liberta, nos tira angustias, nos introduz no santuário da paz. A agonia de nos lembrarmos é imensa, embrar é reconhecer padrões, lembrar é prever repetições, lembrar é nos prendermos as algemas cíclicas do tempo. Acho que por isto que na velhice começamos a nos esquecer de muits coisas, na velhice nosso corpo fica sábia ele sabe que é preciso se concentrar naquilo que é importante “VIVER”.