minha velhice atual

Tenho um pacto com as letras, eu não as busco desesperadamente nem elas se escondem de mim, eventualmente, o destino cuida de nos reunir com propósitos comuns. Escrevo para me vingar da morte, para fazer pirraça com ela, sei que um dia vou desaparecer deste mundo, mas, me nego a deixar desaparecido para sempre meus sentimentos, pensamentos, ideias, dores, alegrias e todos os retalhos de minha vida. Escrevo também para parar de sofrer, as letras são um anestésico, um alívio para essa dor de viver, esta angustia, este inconformismo com o presente e dessa desesperança de um futuro inexistente.

Não possuo ainda a sabedoria da velhice, mas, me livrei de algumas ingenuidades da juventude. O fato que se soubesse que o passar dos anos me traria tamanha felicidade queria ter envelhecido antes. Me sinto mais feliz hoje do que quando era mais jovem, talvez porque quando eu era jovem não me encontrava tanto em mim quanto agora, não sentia que o que eu faço é mais eu agora, me sinto mais completo, me vejo refletido no meu trabalho e cada vez mais apaixonado por ele, minhas ações se aproximaram mais das minhas palavras e embora ainda seja uma contradição, me sinto mais leve e verdadeiro. Encontrei ressonância nos versos de um antigo pintor Japonês Hokusai (1760-1849)

Desde os seis anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos cinquenta anos publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que produzi antes dos setenta não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver oitenta anos, terei realizado mais progressos, aos noventa penetrarei no mistério das coisas, aos cem, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e, quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, seja uma linha, terá vida.

Me sinto feliz com minha idade ainda por um motivo, cada dia que passa tenho mais coisas para sentir saudade, o Riobaldo aquele jagunço filosofo do Guimarães Rosa, dizia que toda saudade é uma espécie de velhice, pensando assim acho que já nasci velho, pois eu sou doutorado em saudades, sinto saudades dos finais de tarde vermelhos de Minas, do colo da mamãe, de encontrar meus melhores amigos, do café do fogão de lenha da vovó, das brincadeiras na rua de casa.

Não me preocupo em envelhecer, talvez tudo mude em algum momento, na verdade as vezes até aguardo envelhecer com certa ânsia porque descobri que só os velhos voltam a ser crianças.