Entre as incertezas da verdade

Vivemos sob o reino das certezas, e é esse legado que a ciência moderna tem deixado sobre o mundo. Nunca soubemos mais sobre mundo do que42-20359308 sabemos agora. Sabemos de que elementos são constituídos todo e qualquer material encontrado no planeta, quantos anos tem o universo e que o mesmo está em expansão acelerada. Sabemos que existem 17 bilhões de insetos para cada pessoa. Mas, será que ser conhecedor de tudo isso realmente deve ser motivo de tanto orgulho.
Ora, as nossas certezas são currais onde as preocupações ficam presas. É que presas elas não oferecem perigo,  não saber é muito angustiante. Um turbilhão de questionamentos  inquieta nossa vida tão frágil. A que horas o ônibus vai passar? Eu aplico na bolsa ou compro imóveis? Fazemos uma viagem ou nos divorciamos?
Contudo, essa mesma certeza nos engessa, nos algema em eternas rotinas, afinal, por que mudar se desse modo tudo vai terminar bem? As certezas nos amaldiçoam ao criar padrões para o nosso cotidiano, fazendo da nossa vida uma equação matemática chata.
Saber, ter certezas, nos faz sentirmos seguros e nos ajudam a fazer planos. Certezas nos deixam navegar num oceano calmo livres das tempestades da dúvida. Certamente um homem cheio de certezas dorme bem melhor à noite, mas, um homem cercado de dúvidas vive bem melhor durante o dia.
Em 1927, Werner Heisenberg, o controverso físico alemão, talvez o maior depois de Einsten, postulou o “Princípio da Incerteza”, uma idéia segundo a qual é impossível medir simultaneamente e com precisão absoluta a posição e a velocidade de uma partícula, isto é, a determinação conjunta do momento e posição de uma partícula. Este princípio teve repercussão filosófica enorme, pois rompia com a idéia determinística de mundo e nos introduzia num mundo probabilístico, onde acontecimentos tinham apenas grandes possibilidades de se realizarem, mas, era impossível sermos envolvidos pela certeza. Heisenberg nos devolveu a emoção de viver. Nos colocou de novo no mesmo sentimento do homem das cavernas, nos trouxe de volta a vocação humana de navegarmos num mar de imprecisões e erros, nos chamou de volta ao nosso corpo o espírito do qual nos tornou o que somos, qual seja, um ser atormentado pelo imprevisível.
Ter dúvidas nos move, nos faz buscar soluções. Ter dúvidas faz criar caminhos. Duvidar faz a nossa vida miserável e monótona valer a pena. Quem tem dúvidas não se paralisa. Sócrates tinha horror a certezas, por isso sempre declarava que a única coisa que sabia e que não sabia nada. Não me estranha o oráculo de Delfos tê-lo declarado o mais sábio dos homens.
A dúvida nos premia com pureza de intenções, pois sem certezas o espírito julga sem pressões ou preconceitos. O Humberto Gessinger, líder e letrista da banda “Engenheiros do Hawaii” pensa de forma semelhante a minha, pois escreveu em uma das suas canções. ” Eu posso estar correndo pro lado errado, mas a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza.”
Termino este texto com muitas dúvidas sobre escrever mais sobre isto. Tenho uma certeza, a mesma de Descartes , o pai do método científico,  esse tipo de questionamento lhe assombrava. “A dúvida nos possibilitava um núcleo de certeza… Se duvido, penso”